Potenciação Aguda do Rendimento

A potenciação do desempenho agudo em desportos de alto rendimento é um fator claramente a ser explorado por qualquer treinador ou especialista em força e condicionamento, de modo a aumentar o rendimento desportivo dos atletas em contextos de alta competição desportiva. Devido ao contexto atual do desporto, a especificidade do mesmo, e o avanço científico torna-se cada vez mais necessário utilizar as estratégias mais vantajosas e competitivas que podemos encontrar na atualidade. Iremos falar assim de algumas estratégias que implementaríamos no nosso contexto desportivo. A primeira estratégia a ser utilizada irá recair sobre como iremos executar o aquecimento antes de uma partida de futebol. O aquecimento além de prevenir lesões tem também um impacto na performance subsequente do mesmo. Assim analisamos o artigo científico realizado por Abade et al. (2024). Consequentemente, vários mecanismos e fatores foram explorados para identificar as estratégias mais adequadas para melhorar o desempenho agudo em cada contexto específico. A potencialização aguda do desempenho está fortemente ligada à temperatura e aos mecanismos neuromusculares e sua magnitude parece aumentar quando a atividade principal é precedida por esforços máximos ou submáximos. Temperatura muscular, aumento do impulso neural e conteúdo de água nas fibras são alguns fatores potenciais que podem melhorar o desempenho neuromuscular voluntário de curto prazo, um fenómeno recentemente identificado como PAPE (ou seja, aprimoramento do desempenho pós-ativação). Ao analisar o papel do PAPE nas atividades de aquecimento, o curso do tempo de potencialização é um dos tópicos mais importantes a serem considerados. Além disso, o tempo de recuperação dado após uma rotina de aquecimento também assume um papel primordial, podendo ser ou não benéfico no desempenho realizado á posteriori. Estabelecer janelas de oportunidade após atividades de condicionamento com durações ótimas é essencial para garantir que os efeitos de potencialização superem a fadiga. Este estudo analisou assim rotinas de aquecimento típicas no contexto desportivo como por exemplo corrida de baixa intensidade, alongamento dinâmico, sprints lineares e mudanças de direção. Os participantes deste estudo foram testados em 3 momentos diferentes, antes do aquecimento, 5 minutos após o aquecimento e 10 minutos após o aquecimento.

Na presente investigação, o aumento do salto vertical foi mantido durante uma janela de tempo de 10 minutos. A potencialização das janelas de tempo após atividades de condicionamento não é consensual devido aos múltiplos fatores que podem afetar o equilíbrio entre o aumento do desempenho e a fadiga. De facto, os intervalos de recuperação ideais para maximizar a função muscular voluntárias subsequentes podem variar de 5 a 12 minutos.

Marcadores de Desempenho (Salto, Sprint, Força de Preensão): Geralmente mostram melhoria tanto aos 5 quanto aos 10 minutos após o aquecimento em comparação com o pré-aquecimento. As diferenças entre as janelas de tempo de 5 e 10 minutos pós-aquecimento são principalmente triviais ou pequenas, sugerindo que os benefícios do aquecimento para essas medidas são amplamente mantidos ou atingem o pico dentro dos primeiros 5-10 minutos. Portanto gerir de forma correta o tempo de intervalo entre o aquecimento e a competição assume um papel importante no que diz respeito a uma melhoria de performance.

Outra estratégia que iremos utilizar é na retoma ao jogo depois do intervalo. Assim Russel et al. (2015) recomendam a utilização de métodos ativos para contrariar a queda de desempenho frequentemente observada nas fases iniciais após o intervalo. o desempenho não é determinado apenas por fatores físicos, mas também depende de habilidades cognitivas (Scharfen et al., 2019; Trecroci et al., 2021). Em consonância com isso, Russel et al. (2015) destaca que as estratégias de recuperação não devem considerar apenas as habilidades físicas, mas também as cognitivas. Neste estudo foram comparados dois grupos onde um realizava 5 minutos de recuperação passiva e outro realizava os mesmos 5 minutos, mas com recuperação cognitiva-motor. Os resultados mostraram uma melhoria significativa na performance, porém não houve alterações na frequência cardíaca ou fadiga sugerindo que os ganhos são sobretudo a nível do engajamento mental. Já no âmbito da cafeína, que é frequentemente utilizada como um recurso ergogénico para melhorar o desempenho em ações de força, potência e resistência muscular. No entanto Tamilio et al. (2022), questiona a consistência desses efeitos. Os autores analisaram a reprodutibilidade dos efeitos da ingestão aguda de cafeína (3 mg/kg de peso corporal) em diferentes parâmetros de desempenho muscular, verificando que os resultados variaram substancialmente entre os indivíduos e entre sessões distintas. Embora alguns participantes tenham demonstrado melhorias significativas na força, potência ou resistência muscular, noutros casos os efeitos foram reduzidos ou mesmo inexistentes. Esta variabilidade inter-individual sugere que a cafeína não apresenta uma resposta ergogénica uniforme, levantando hipóteses como a influência da tolerância, da genética ou da habituação ao composto. Assim, apesar de ser uma substância com reconhecida eficácia no desempenho desportivo, o estudo reforça a necessidade de uma abordagem personalizada no seu uso. Para atletas como os médios de futebol, cujo desempenho depende de ações explosivas e intermitentes, estes dados são especialmente relevantes. A aplicação da cafeína como meio de potenciação aguda deve ser previamente testada em contexto de treino, de forma a avaliar a resposta individual e evitar surpresas em dias de competição.
A potenciação aguda do desempenho (PAP) é uma estratégia frequentemente utilizada no treino de atletas de modalidades explosivas, como o futebol, com o objetivo de melhorar temporariamente o rendimento em ações como sprints, saltos e mudanças de direção.
No estudo de Requena et al., 2009, os autores investigaram o efeito da PAP induzida por exercícios de força na melhoria do desempenho físico de jogadores de futebol bem treinados, focando-se especificamente nas variáveis de sprint, potência e agilidade. Os resultados do estudo demonstraram que a potenciação não ocorre de forma imediata, mas sim com um certo atraso temporal após o estímulo condicionante (como agachamentos pesados ou pliometria), confirmando a existência de um intervalo ideal de tempo entre a ativação e a realização do exercício-alvo. Quando este intervalo é respeitado, observou-se uma melhoria significativa na performance em sprints curtos (10 m e 20 m), saltos verticais e testes de agilidade (T-test), todos altamente relevantes para a posição de médio, onde a capacidade de aceleração, mudança de direção e potência são cruciais. Este estudo reforça a importância do timing e da individualização na aplicação da PAP. Aplicar o estímulo demasiado cedo ou demasiado tarde pode comprometer os seus efeitos, destacando a necessidade de conhecer a resposta específica de cada atleta.
No contexto do futebol, e em particular para médios que realizam ações de alta intensidade ao longo de todo o jogo, o estudo valida o uso estratégico da PAP em momentos-chave da preparação, como antes de treinos de velocidade ou em microciclos orientados para potência. Falando agora na utilização de suplementos nutricionais como o sumo de beterraba (rico em nitrato) e o bicarbonato de sódio, estes tem vindo a ganhar destaque como estratégia de potenciação aguda do rendimento (PAP), sobretudo em modalidades intermitentes como o futebol. Ambas as substâncias atuam por mecanismos distintos, mas complementares, sendo particularmente úteis para jogadores como os médios, que realizam ações intensas e repetidas ao longo de todo o jogo.
Relativamente à beterraba, esta contém elevadas concentrações de nitrato, que no organismo é convertido em óxido nítrico, promovendo a vasodilatação e uma maior eficiência na utilização do oxigénio pelos músculos. O estudo de Nyakayiru et al. (2017) demonstrou que a suplementação com sumo de beterraba melhorou o desempenho em exercícios intermitentes de alta intensidade, reduzindo o custo energético e aumentando a tolerância ao esforço. Estes efeitos são especialmente relevantes para médios, dada a exigência constante de sprints curtos, mudanças de direção e recuperação rápida entre esforços.
Por outro lado, o bicarbonato de sódio atua como um agente tampão extracelular, ajudando a neutralizar o ácido lático acumulado durante o exercício intenso, o que pode atrasar a fadiga e prolongar o rendimento de alta intensidade. No estudo de Saunders et al. (2012), verificou-se que jogadores de futebol que consumiram bicarbonato antes da prática desportiva demonstraram melhor desempenho em séries de sprints repetidos, um padrão comum no futebol moderno.
Na prática, a ingestão de sumo de beterraba deve ser realizada 2 a 3 horas antes da competição, enquanto o bicarbonato de sódio é normalmente ingerido entre 60 a 90 minutos antes. No entanto, é essencial considerar a variabilidade individual, dado que o bicarbonato pode causar desconforto gastrointestinal em alguns atletas. A combinação de ambos, quando bem tolerada, pode representar uma ferramenta eficaz de potenciação para maximizar o desempenho agudo, especialmente em atletas que dependem de esforço intermitente de alta intensidade.
Por fim, a creatina é um dos suplementos ergogénicos mais estudados e utilizados no desporto, com efeitos comprovados na melhoria da força, potência e capacidade de realizar esforços repetidos de alta intensidade. Embora o seu impacto não seja imediato como o da cafeína ou do bicarbonato de sódio, a suplementação crónica com creatina permite uma maior disponibilidade de fosfocreatina nos músculos, o que melhora a produção de energia rápida durante exercícios intensos e curtos, uma característica fundamental nas ações específicas do futebol. O estudo de Rawson & Persky (2007) destaca que a creatina aumenta significativamente o desempenho em exercícios de força e potência, assim como em esforços intermitentes, como os que ocorrem durante um jogo de futebol. A sua principal ação consiste em acelerar a reposição de ATP, o que permite ao atleta manter intensidades elevadas por mais tempo e com menor fadiga. Além disso, contribui para o aumento da massa muscular magra e da capacidade de treino ao longo do tempo. Diferentemente de outros suplementos utilizados para potenciação aguda do rendimento (PAP), a creatina não exige ingestão pré-treino ou pré-jogo. A sua eficácia está associada à suplementação diária e contínua, independentemente do tipo de sessão (força, velocidade, resistência ou recuperação). A dose habitual de manutenção é de 3 a 5 gramas por dia, sendo suficiente para manter os músculos saturados com fosfocreatina, maximizando os seus efeitos ergogénicos a médio e longo prazo.
- Desporto: Futebol (Benfica)
- Posição: Médio
- Enquadramento na sessão de treino: Antes da sessão maioritariamente

- Domingo – Recuperação
Objetivo: Ativar a musculatura com baixa carga, sem stress metabólico.
BFR leve (20–30% 1RM): 2–3 séries de agachamento com restrição do fluxo sanguíneo parcial dos membros inferiores. Favorece circulação e recuperação ativa com estimulação muscular.
- Segunda – Folga
Objetivo: Recuperação total.
- Terça – Força
Objetivo: Maximizar recrutamento de fibras tipo II.
Cafeína (3–6 mg/kg): ingestão 30–60 min antes (opcional, depende do atleta).
PAP Neuromuscular (Agachamento 85–90% 1RM): 1–2 reps pesadas → 6 min de descanso → sprint curto (10–20 m) ou salto vertical. Alternativa: Saltos com carga leve.
Efeito: ↑ taxa de produção de força e pico de potência.
- Quarta – Resistência
Objetivo: Aumentar tolerância ao esforço intermitente.
Cinética de VO₂ (Priming Exercise): Corrida a 90–95% VO₂máx por 3–4 min → 10 min pausa ativa → treino principal.
Alternativa nutricional: Nitrato (beterraba) 2–3 h antes.
Efeito: ↓ défice de oxigénio, ↑ eficiência muscular e ↓ fadiga precoce.
- Quinta – Velocidade
Objetivo: Aumentar explosividade e qualidade nos sprints.
Cafeína (3–6 mg/kg): ingestão 30–60 min antes (opcional, depende do atleta).
PAP com saltos pliométricos ou lançamentos medicinais: 3 séries de 3–5 reps explosivas.
Efeito: ↑ alerta, ↑ produção de força rápida, ↓ PSE.
- Sexta – Tapering
Objetivo: Otimizar prontidão sem fadiga.
Cafeína leve (2–3 mg/kg) + Nitrato (opcional, depende do atleta).
Ativação com PAP ligeiro (saltos, skipping, acelerações curtas).
Efeito: Manter o sistema nervoso ativo sem acumular fadiga.
- Sábado - Jogo
Objetivo: Maximizar o rendimento sem causar fadiga, aumentar a prontidão neuromuscular e mental e otimizar energia para ações explosivas: sprints, mudanças de direção, pressão, remates, passes longos.
1. PAP Nutricional – Pré-jogo (2–3h antes)
Cafeína – 3 a 6 mg/kg (45–60 min antes do jogo)
• ↑ Vigilância, ↑ recrutamento motor, ↓ PSE.
• Exemplo: jogador de 70 kg → 210–420 mg.
Nitrato (sumo de beterraba) – 6–8 mmol (~400–800 mg) de nitrato 2–3h antes
• ↑ Oxigenação muscular, ↑ eficiência, ↑ performance em sprints repetidos.
• Ideal para médios com muitas ações intermitentes.
Bicarbonato de sódio – 0,3 g/kg (90 min antes)
• ↑ Capacidade tampão → ↓ acidez muscular, ↑ tolerância ao esforço.
• Exemplo: jogador de 70 kg → 21 g de bicarbonato (tomar com refeição leve).
• Atenção: possível desconforto gastrointestinal. Testar antes num treino.
2. Ativação Neuromuscular (no aquecimento)
PAP Ligeiro com Pliometria e Sprint
No final do aquecimento tradicional (~10–15 min antes do jogo): 2 séries de:
o 3 saltos verticais máximos.
o 2 acelerações de 10 metros.
o 1 lançamento de bola medicinal (se possível).
• Tempo total: 4–5 minutos.
Objetivo: ↑ ativação sem induzir fadiga.
- Todos os dias
Creatina: 3 a 5 g/dia, idealmente sempre à mesma hora (de preferência após o treino com hidratos de carbono). Não é um suplemento de efeito agudo, ou seja, não precisa de ser tomado antes do treino ou jogo, o importante é a consistência diária.